Medalhista de ouro
por Adriano Marquez Leite, em 30/07/2007

Era uma vez, uma senhora que gostava de tricotar e quase saia de casa apenas para cuidar de seus netos. Bem velhinha, não tinha ânimo para outras atividades e preferia levar uma vida monótona. Era infeliz.

Em tempos contemporâneos, histórias como estas se repetem por todo o mundo. Idosos que, sem o vigor da juventude, simplesmente deixam de viver. Não é o caso de Mariza Almeida. Aos 67 anos, ela engrossa a lista de uma terceira idade cada vez mais ativa, feliz e cheia de disposição.

Sua história de superação lembra a de grandes esportistas. Primeiro, o baque de se sentir inoperante. Depois, a recuperação e força total para continuar vivendo. "Andei mais que os atletas. Daqui há pouco, quem ganha medalha de ouro sou eu", diz Mariza. E Ela merece.

De origem pobre, a aposentada nunca teve a oportunidade de aproveitar sua mocidade por causa do trabalho. Depois o casamento. Ficou viúva "para não casar nunca mais". E, por fim, ainda perdeu a visão de um olho por causa de um tumor. Segundo Mariza, daí para a depressão foi um passo, vários fatores também contribuíram.

Driblar estas dificuldades foi uma questão de tempo. Com apenas um olho "funcionando", aprendeu a brincar e levar a vida de forma mais leve. Mariza brinca que, ao pedir ajuda, diz para pessoas terem um pouquinho de paciência pois "tem um farol só". De acordo com ela, as pessoas riem e a ajudam com muito mais vontade do que se chegasse se lamentando.

A superação de sua fase depressiva veio em pouco tempo. Ao perceber que podia ser feliz, começou a buscar meios para realizar seus sonhos. "Há 20 anos que desfilo na ala das baianas da Portela e tinha parado. Voltei para lá e agora, todo ano, também vou ao Alzirão", afirma Mariza. Alzirão, na verdade, é a rua Alzira Brandão, na Tijuca, que reúne quase 80 mil pessoas em tempos de carnaval para assistirem aos desfiles e aproveitar o feriado.

Sem preocupação

Depois da morte do marido, a única filha de Mariza virou evangélica e a abandonou. A aposentada se considera muito religiosa, mas o afastamento da filha foi necessário pois recriminava tudo o que fazia. "Poxa, eu estava feliz, mas ela me proibia de fazer tudo! Não preocupo com doença, com nada. Me preocupo em me divertir. Sou de Deus, mas não vou deixar de curtir", lembra a senhora com ares de ressentimento.

Flamenguista roxa, já foi ao Maracanã "umas não-sei-quantas vezes" e agora aproveita o Pan para conhecer outros complexos esportivos pela cidade. Percorreu as instalações desde a Barra da Tijuca, passando por Copacabana, Maracanã, Engenho de Dentro e Vila Militar. Morando no Méier, só para chegar ao estádio "templo do futebol", demora duas horas; nos outros lugares, "quase uma eternidade", suspirou Mariza.

Com tanta animação, a popularidade também veio. A aposentada já foi entrevistada por diversas redes de TV, jornais e "até pelo site Clickpan 2007", brincou conosco. Na cerimônia de encerramento, onde a encontramos, disse ter sido filmada pela maior emissora de TV do país e sairia em rede nacional.

"A gente tem que ser popular, estar na mídia. Mas em mim a fama não sobe à cabeça, pois eu sei o quanto as pessoas ficam ridículas quando isso acontece" seriamente afirmou Mariza. Seu próximo desafio esportivo? "Quero correr por essa vida por mais de 100 anos. Fôlego eu tenho e garra para competir também. Preciso de mais?"

 

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